Maternar em Outro País é...

O ABOUT LOVE é fruto de um longo e profundo processo. E foi na ideia de um Editorial para o Dia das Mães, com fotografia, maquiagem da @jhennemakeup e direção de arte da @deboralimamakeup que ele tomou corpo, cor e alma. Mas por conta da pandemia tivemos que desacelerar, e a vontade de falar sobre esse assunto de conexão e acolhimento, que faz com que nossas linhas se cruzem e deem nós, falou mais alto. Então, seguimos com os textos escritos por mulheres expatriadas completando a frase: “Maternar em outro pais é...”.


Cada texto é um abraço bem quentinho em mim e em todas as mulheres que estão vivendo a maternidade fora de seu país de origem.


“A sua criança não entende as suas referências de infância, a sua língua não é a primeira língua dela e você luta todos os dias para que seja ao menos a segunda.”


Por Jessica Popoff


Eu escolhi a palavra ‘solidão’ . A maternidade por si só é uma fase solitária. Mas viver longe das suas referências e de pessoas que te amam transforma isso em uma ilha emocional. E isso torna-se mais difícil quando acompanhada de uma pedra nomeada “ depressão pos parto” onde todas suas emoções são potencializadas. Você não tem raiva, você tem explosões de ódio; você não chora, você derrama lágrimas por cada respiração ; você não quer dormi pelo fato de estar cansada depois de cuidar do seu bebe, você quer sumir e voltar apenas quando tiver pessoas para aliviar esse peso. Mas você não pode, você tem alguém que precisa de você e só tem a você. E, assim, a ilha da solidão vai aumentando a sua volta juntamente com os julgamentos. Ah... os julgamentos!


Eu tive que pegar todas as referências de maternidade e dicas de cuidado que eu tinha de mães brasileiras e adaptar aos costumes canadenses. Ninguém me ensinou a ser mãe, muito menos uma mãe brasileira dentro da sociedade canadense. Você não tem uma rede de apoio para dividir as tarefas, nem tem as pessoas amadas para assistir com você o desenvolvimento do seu filho. Voce liga, manda mensagem mas essas pessoas nunca vão poder sentir a emoção ao vivo de ver o primeiro passo, a primeira palavra dita. O fato é que a sua maternidade é sua, somente sua e seu baby é alguém desconhecido para todas aquelas pessoas importantes para você.


O tempo vai passando e você vai percebendo que cada vez mais você tem uma maternidade solitária. A sua criança não entende as suas referências de infância, a sua língua não é a primeira língua dela e você luta todos os dias para que seja ao menos a segunda. Tudo que você pode fazer é respeitar esse ser que está crescendo em uma sociedade bem diferente que você cresceu e saber conviver com a solidão dessa maternidade porque a boa notícia é que um dia vai passar. Um dia você vai olhar para sua criança e descobrirá que seu maior aliado nessa etapa foi ela/ele. E você terá orgulho de ter vencido todos esses monstros mesmo que solitariamente.”


“A minha criança interior sempre me pergunta: Quando a Julia vai viver o que eu vivi com as pessoas que eu cresci? Respondo que as experiencias dela terão outros tons, pois a mãe dela é expatriada e na pátria onde ela nasceu já não se sente pertencer.”


Por Cristiana Titi


“Para mim a palavra que define ser mãe expatriada, é respirar!


A maternidade por si só é uma grande poesia. Cada dia, cada segundo..tudo é tão poético e singular.. mexe com todas as nossas emoções nos faz descobrir coisas que não tínhamos idéia de sua existência.

E ser mãe expatriada é também uma poesia, porém complexa. É cheia de altos e baixos. Cheia de nuances e delírios. Cheia de sabores e dessabores. É um começo e recomeço.


As vezes acho que estou vivendo uma grande ilusão, que eu deveria mesmo era estar no país onde nasci e fui criada. Seria mais fácil. Mas não seria tão profundo. Não teria descoberto essa íntima dança rítmica dentro de mim e que danço todos os dias. Não teria nem aprendido a dançar ouvindo uma música que sussurra no meu ouvido e me diz que tudo sempre fica bem, a noite quando enfim, consigo adormecer.


A minha criança interior sempre me pergunta: “Quando a Julia vai viver o que eu vivi e com as pessoas que cresci?” Respondo que a experiência dela será bem diferente da minha, terão outros tons, contará uma outra história mesmo fazendo parte da minha. Pois a mãe dela é expatriada e na pátria onde ela nasceu ela já não se sente pertencer.


Então, o que tenho feito ao sentir essa complexa poesia me levando para lá e para cá como uma gigantesca onda do mar, é respirar… respirar profundamente.”

“Uma culpa se dissipa e outra chega, até que já não nos reste nenhuma. Tento me lembrar sempre: Você está fazendo o seu melhor.”


Por Bianca Raven

“Minha palavra é Culpa.


Lucas nasceu prematuro. 17 dias na NICU.
Chorava muito. Colicas diarias com hora marcada. Dormia nada – ou essa era eu?

 O berco foi meu colo por quase 1 ano.
“Coloca ele no berco e deixa chorar. Nenhum bebe nunca morreu de chorar. Assim ele vai aprender a dormir sozinho.”


Tentei. Nao consegui.
Eu via meu filho com pouco mais de 3 quilos pedindo para ser gestado aqui fora.
Meu colo foi berco e foi remedio, mas me senti culpada todos os dias porque eu nao sabia fazer meu filho dormir sozinho no berço.


Culpa por nao ter conseguido parir meu filho de forma natural.


Culpa por nao ter conseguido amamentar.
“Nossa, tao novinho e ja na mamadeira?"


Culpa de voltar a trabalhar e deixar na creche.
“Ele e muito pequeno, se algo acontecer ele nem vai conseguir te contar.”


Culpa por ter pouco tempo, por tantas vezes faltar paciencia.


Algumas culpas vao sendo deixadas para tras tambem, eu sei.
Cama compartilhada? Temos.
Comer batatinha do Macdonalds? Temos tambem.


Uma culpa se dissipa e outra chega, ate que ja nao nos reste nenhuma.

Tento me lembrar sempre: voce está fazendo o seu melhor!


Me culpando e me desculpando, vou seguindo no meu maternar - amando.”

“A maternidade é um dia querer voltar a ter sua independência e, no outro, é caminhar no parque com a sua filha, sentar num banco e ao amamentá-la, tirar uma fotografia imaginária. Aquelas de memórias afetivas que você nunca mais vai esquecer o som, o olhar e o cheiro daquele momento. E então você fica em paz e com a certeza que está no caminho certo.”


Por Natalia Taveira


Ser mãe já era parte de mim. Sempre fui a tia que inventava as brincadeiras, que levava pra passear e quando chegou a minha vez eu me perguntava, pq ninguém conta a real? O pq da romantização da maternidade. Eu à km das minhas amigas-mães e família, ali começou o meu renascimento. Tive sorte, nos meus primeiros dias pude contar com a minha mãe. Ali também entendi a força da mulher e de minhas ancestrais. Aquilo crescia dentro de mim com uma força. Eu sabia que conseguiria sozinha mesmo sem uma rede de apoio. Mas a maternidade nos revira, questiona, a exaustão faz vc se auto analisar todos os dias. Se vc nunca fez, provavelmente fará uma terapia de casal. A relação fica tão distante. Coisas simples como sair sozinha dirigindo um carro te faz sentir viva. Se vc tiver uma amiga para fazer um happy hour então, vc esta com sorte! Essa é uma parte amarga dos expatriados. Você é esquecido. Se tornou mãe então... dói muito.. mas vc amadurece e começa a compreender as fases.


A maternidade é um dia querer voltar a ter sua independência, trabalhar fora e no outro é caminhar no parque com a sua filha, sentar num banco e ao amamenta-la, tirar uma fotografia imaginária. Aquelas de memórias afetiva que vc nunca mais vai esquecer o som, o olhar e o cheiro daquele momento. E então vc fica em paz e com a certeza que está no caminho certo. Ali vc renasce, novamente, entre os muitos renascimentos de uma mãe durante a maternidade e longe da sua família.”

“Todo fim do dia , dói muito saber que vc tem que escolher entre dar a oportunidade de seu filho ter um melhor futuro ou crescer cercado da família”


Por Mariana Campos


“Eu escolhi a palavra desafio pq sem ser Mãe já é o maior desafio dessa vida! E quando vc pensa em ser essa Mãe em outro país , outra cultura, outro idioma, longe da família, sem uma rede grande de apoio, esse desafio se múltipla em mil. Todo fim do dia , dói muito saber que vc tem que escolher entre dar a oportunidade de seu filho ter um melhor futuro ou crescer cercado da família!!! E um peso e uma responsabilidade gigante. Um medo de seus filhos não te culparem por essa ausência e por ter “ decidido” a vida deles!! Eu morro de medo que essa ausência familiar( raizes) seja um peso no crescimento deles e me culpo muito por minha família não poder conviver com eles todo o tempo como gostariam! Mas....... eu acredito que isso será o melhor pra eles! ( well, I hope 🤞😊)”.

“Não existe a possibilidade daquele membro da família vir ficar um pouquinho com seu filho pra você tomar um banho de mais de dois minutos, tirar um cochilo, se alimentar direito... As necessidades básicas ficam para o segundo plano. E a nossa mente vira um baú de pontos de interrogação. É intenso”


Por Flavia Pirozzi


O universo é mesmo cheio de surpresas. Por mais que sempre tenha pensado em ter filhos, nunca admitia. Era uma mistura de medo e orgulho. Tinha a necessidade interna de me mostrar como uma mulher forte, focada no profissional pelas inúmeras pressões do cotidiano. Tudo mudou quando eu conheci minha pessoa ideal. A vontade se tornou tão grande que me descreviam como “mãe sem filhos”. E daí eles vieram... O nascimento do primeiro foi intenso, assim como os primeiros dias. Intenso também foi o amor que acreditava ter surgido quando descobri que estava grávida. Grande ilusão. Eu não sabia de absolutamente nada até que aqueles dedinhos seguraram a minha mão com uma força inigualável. Foi intenso. Quando aquela boquinha minúscula conseguia se alimentar daquele líquido dourado que saía dentro de mim. Quando o medo deles dormirem sozinhos no berço me fazia ficar acordada. Quando todas as preocupações diárias me desequilibravam de uma maneira nunca sentida. Quando caíam. Quando deram os primeiros passos. Quando choravam. Quando gargalhavam. Quando faziam pirraça. Quando... tudo. Intenso. A todo tempo: intenso. Toda mãe vive essa mesma intensidade e é fácil se relacionar com essas palavras. Entretanto, a mãe expatriada passa por isso tudo sozinha. Não existe a possibilidade daquele membro da família vir ficar um pouquinho com seu filho pra você tomar um banho de mais de dois minutos, tirar um cochilo, se alimentar direito... As necessidades básicas ficam para o segundo plano. E a nossa mente vira um baú de pontos de interrogação. É intenso. E esses questionamentos acabam virando culpa. Ah! Nada mais intenso do que a culpa. Ela nos acompanha sempre e a intensidade dela é surreal. Porém, o mais surreal de tudo é o amor. Nada se compara ao amor de uma mãe por um filho. É algo que dói de verdade. É uma saudade eterna de algo que está nos seus braços. É o que há de mais intenso nesse universo.

“Ser mãe em outro país é criar a sua aldeia.”


Por Regina de Brito


“Quando cheguei em 1993, putz faz tempo!!


Ter apoio, contato com a família e amigos no Brasil não era simplesmente ‘ligar’ o computador.


Assim como eu e tantas outras na mesma situação de ser mães pela primeira vez e é claro inexperientes, que ao longo do tempo fiquei a conhecer, sendo algumas grande amigas de agora. Tivemos que reconhecer que precisávamos de ajuda.


E de uma forma inocente criamos nossa Aldeia. Rimos e choramos juntas. Compartilhamos erros e acertos. Apoiamos umas as outras sem muito julgamento, sim pois somos humanas.


E digo-lhes agora, foi a melhor decisão que fizemos não só para nós mães como também para os nossos filhos pois nos tornamos uma família. Uma Aldeia!”

“Os dias são longos mas os anos são curto”


Por Debora Vilar


“A primeira palavra que veio na minha cabeça foi intensidade. Maternar em outro país é a coisa mais intensa que já vivi na minha vida! Eu parei de trabalhar quando tive meu primeiro filho e desde então sou mãe em tempo integral. “Os dias são longos mas os anos são curtos”. Esta frase me marcou muito porque literalmente o tempo voa. É tudo muito intenso, desde o trabalho físico de carregar, alimentar, cuidar e etc quanto o trabalho mental. Ser o adulto na relação implica em você gerenciar as suas próprias emoções em prol de alguém imaturo, que não sabe colocar em palavras o que está sentindo, ou melhor, que na maioria das vezes nem sabe o que está sentindo. Não importa o quão intenso seja o seu sentimento (raiva, frustração, medo...), temos que tentar calar o grito e trocá-lo pelo diálogoSer mãe é amar intensamente sem medidas, é amar incondicionalmente mesmo quando vc sente raiva e vontade de sumir. Ser mãe é tão intenso que se trancar no banheiro e fazer xixi sozinha parece férias. 😂”

“Ser mãe em outro pais é cheio de conflitos. Conflitos que fizeram eu admirar o Canadá mais do que nunca.”


Por Augusta Schmidt


“Pra mim a decisão de ser mãe amadureceu devagar. Talvez por que eu demorei a amadurecer. Talvez porque minha escolha de viver fora da minha terra natal, consumiu toda a energia que eu tinha. O tempo voou e chegou a hora. A maternidade virou meu objetivo. Se eu estivesse no Brasil eu poderia marcar consulta com tal médico... eu poderia escolher fazer aquele tratamento. Engravidei! No Brasil eu poderia escolher aquela obstetra que a minha amiga foi... minha família faria um chá de bebê, minha irmã me passaria as roupinhas dos meus sobrinhos. O Igor nasceu. Sem rede de apoio pra correria do dia a dia. A palavra que escolhi foi: conflitos. Esses conflitos que fizeram eu admirar o Canada mais que nunca. Não escolhi a clínica de fertilidade, mas recebi o tratamento que eu precisava. Sem custo. Tive meu bebê em casa, sem medicamento, isso nem passaria na minha cabeça se eu não morasse aqui. Eu contratei profissionais super competentes que me deram apoio no puerpério. Doula pós parto, alguém pra limpar minha casa, comprei comida brasileira pronta. E aquelas coisas que meu bebê não herdou dos meus sobrinhos? Bom, eu tive amigas sensacionais, que me encheram de roupinhas e outros mimos. Eu recebi bolo na porta de casa, presentinhos com perfume de mamãe bebê, cestas com muitos mimos e do Brasil, todo amor que eles tem pra dar. Os conflitos vão fazer parte desse amadurecimento continuo, mas quando eu olho no espelho e vejo uma mãe eu aceito esses conflitos, vou à luta e por muitas vezes conquisto algo melhor do que aquilo que eu considerava ideal.”

“Lá eu tinha suporte da família e ajuda no dia a dia, o que me ajudava muito a ter um tempo só nosso. Já aqui eu preciso ir muito fundo no meu eu. Ser 100% mãe, mulher, profissional, esposa, uma diversidade de papéis e responsabilidades em uma só pessoa. É se reinventar a cada dia, é muito mais do que simplesmente viver e se realizar, é uma renúncia a si própria.”


Por Andreia Lozano


“Eu escolhi a palavra Sabedoria para descrever o que é maternidade aqui no Canadá, porque sabedoria é a habilidade de pensar e agir usando conhecimento, experiência, entendimento e tá associada a atributos como autoconhecimento experiencial, não apego.


E para ser mãe em outro país precisamos pensar e agir com muita sabedoria porque aqui ela é intensa em todos os sentidos. E o desapego esse já deixamos lá quando partimos do nosso país e deixamos nossas raizes.


No meu caso eu vivi os dois lados da maternidade, meu primeiro filho nasceu perto da família, ele viveu o que são almoços de família, dormir e brincar com os avós, sentiu o gostinho doce desse amor. Lá eu tinha suporte da família e ajuda no dia a dia, o que me ajudava muito a ter um tempo só nosso. Já aqui eu preciso ir muito fundo no meu eu. Ser 100% mãe, mulher, profissional, esposa, uma diversidade de papéis e responsabilidades em uma só pessoa. É se reinventar a cada dia, é muito mais do que simplesmente viver e se realizar, é uma renúncia a si própria. E sem sabedoria é muito difícil lidar com tudo isso. A gente não dá conta de tudo sozinha, a gente precisa buscar ajuda, seja uma rede de relacionamento de amigas, uma terapia, a gente precisa se entender e se conhecer melhor para poder fazer diferença na nossa própria vida, entendi que a mudança tem que começar da gente e só aí ela passa a acontecer a nossa volta e também com nossos pequenos.


O que acontece é que é ser mãe é como estar em uma montanha russa constante, cheia intensas e fortes emoções, sejam elas boas ou ruins, é autoconhecimento eterno, porque é um desafio sem fim no meu ver, porque quando você começa a se acostumar ou a se encontrar em alguma rotina com as crianças ela muda de novo, as demandas mudam, as necessidades mudam e a gente precisa mudar novamente. Ser mãe é um intensivão sobre a vida, porque ela não para, muda o tempo todo.


O que precisamos é não se culpar, e nós mães nos culpamos por tudo, é entender que ninguém e principalmente nenhuma de nós é perfeita, todas nós erramos e aprendemos, a maternidade é isso, uma experiência repleta de paradoxos. É boa e ruim, as duas coisas ao mesmo tempo, por isso é normal a gente se questionar, se irritar e se cansar de tanta demanda. E ao mesmo tempo a gente vibrar, se emocionar e se apaixonar por cada conquista dos nossos pequenos.


Uma das coisas que tive que aceitar e entender, é que, como mãe, eu nunca conseguirei suprir cem por cento da demanda de cada um dos meus 2 filhos. Mesmo quando eu tinha apenas um deles, porque não há como nunca falhar. E isso faz parte!!!


A gente falha com a gente, com eles, com nosso relacionamento, com o trabalho, com a vida. Se a gente não falhar nunca iremos mudar, melhorar ou evoluir. Mas o que vale é sempre ter em mente que a cada erro desse foi tentando dar o seu melhor, e o resultado dessa experiência é a sabedoria e ela a gente só aprende vivendo, experimentando e aqui vivemos intensamente cada dia.”

“Sim, é exaustivo. Mas é uma exaustão diferente. Eu sei que quando amanhecer e meu bebê acordar, ele vai abrir um sorriso tão grande quando olhar pra mim que vou esquecer que ele acordou a cada três horas nos últimos dois meses. Ver os dias passando rápido e as roupinhas ficando apertadas nos dá a certeza de que não somos só bons o suficiente, mas os melhores pais que esse bebê podia ter.””


Camila Queiroz


“Jamais achei que ia virar mãe no final do doutorado, morando em outro país, longe da família e em pleno lockdown no meio de uma pandemia. Sempre comparei o doutorado à maternidade - meus alunos eram crianças que não podiam brincar sem supervisão; o projeto era a gravidez que me causava ansiedade; a tese, o filho que demorava a nascer. Sempre que me perguntavam como o doutorado estava indo, eu dizia “exaustivo” e as amigas mães, quase que em deboche, diziam “espera você ser mãe pra saber o que é exaustão”.


- [ ] Eram noites sem dormir, dezenas de e-mails diários com problemas a resolver em prazos curtos, experimentos muitas vezes frustrados, a tese que desafiava minha habilidade no inglês e minha capacidade criativa, e uma banca que muitas vezes me dizia coisas que eu não gostava de ouvir. O sentimento de não ser boa o suficiente era constante!


Enquanto escrevo, meu bebê de dois meses briga contra o sono enquanto mama. São 4 da manhã e sei que assim que ele dormir vou ter duas, no máximo três horas de intervalo pra comer, ir ao banheiro ou dormir. Meu marido dorme depois de um dia alternando entre cuidar da casa, do bebê, cuidar de mim e trabalhar.


Se eu pudesse descrever esse momento, diria que é desafiador. Mas o desafio aqui, mais que agradar uma banca de avaliadores impossíveis de agradar, é manter esse bebê vivo e nos manter sãos no meio de uma crise global. O desafio é não desanimar por não saber quando nossa família vai poder conhecer a pessoa mais importante da nossa vida. O desafio é conciliar nossos horários pra que tudo flua bem e ninguém deixe de comer, dormir nem tomar banho. Em contraste, o amor que a gente sente nesse momento nem se compara com as dificuldades.


Sim, é exaustivo. Mas é uma exaustão diferente. Eu sei que quando amanhecer e meu bebê acordar, ele vai abrir um sorriso tão grande quando olhar pra mim que vou esquecer que ele acordou a cada três horas nos últimos dois meses. Ver os dias passando rápido e as roupinhas ficando apertadas nos dá a certeza de que não somos só bons o suficiente, mas os melhores pais que esse bebê podia ter.”


Se vc está vivendo a maternidade em outro país envie seu texto no hello@fernandabotelho.com e participe dessa rede de conexão e acolhimento